Uma das coisas que me faz gostar da Alice é ela dar pontapés a lagartos. Ao Bill, capítulo IV, acertou-lhe valente biqueirada que o fez voar, como um foguetão, para o lado de lá da sebe. Mas se os lagartos forem lagartas e azuis, daquelas que fumam narguilé e perguntam “Quem és tu?”, já a música tem de ser fina.
“Quem és tu?” nem a Alice sabia nem eu sei, que é a cândida resposta que se deve dar a lânguidas lagartas azuis.
Eu? Às vezes sou, outras não. Lembro-me de um dia em que fui. Aconteceu em Luanda quando, antes de saber quem era, vinha do Liceu. “Aquele que ainda não sabia que era eu” ia de olhos postos no chão e não viu as nuvens. Num instante as nuvens desabaram. Que grande dilúvio! As nuvens caíram espalhando-se todas em gotas grossas. Quentes, mas menos quentes do que o quente que o chão estava. “Aquele que ainda não sabia que era eu”, molhado, tão molhado, disse: olha sou eu. Tinha 10 anos e era eu; eu era a água a correr com alegria pela camisa branca de terylene, a cheia a tapar-me os quedes* se quedes se calçassem até aos joelhos, calções ensopados. Se nesse dia a lagarta azul me tivesse perguntado “Quem és tu?”, teria respondido: eu era eu de tirar a camisa, o peito raquítico de costelas a assomar, contente de estar seminu no meio da rua, mundo sem porquê, sem puxão de orelhas, de uma felicidade aquática, quente, como um pequeno saguim sem ter de dar explicações: de aceitação panteísta se já na altura se dissessem palavrões.